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Crítica
12 de março de 2009

Bom Descanso | Marcelo Rubens Paiva


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12 de março de 2009

A Mulher que Ri | por Nelson de Sá


Publicado no Blog Cacilda em 11/11/2008

Por acaso, um dia depois de ver “A Mulher que Ri” na sala menor do teatro Alfa, liguei a televisão e dei com “Tônica Dominante”. É o filme que Fernando Alves Pinto protagonizava quando, no meio das filmagens, sofreu um acidente e ficou em coma, mais de dez anos atrás.
É uma bela obra, algo obcecada pelos instrumentos e seus movimentos, a “mise-en-scène” toda de uma orquestra, mas também com tomadas do rosto solitário, acuado de seu personagem central, um clarinetista. É um ator que sempre me fascinou, da platéia, em parte por sua experiência trágica, imagino, mas principalmente por sua placidez.
É como se fosse um espectador, ele também, diante daquele universo que corre em torno dele, sem que possa agir para mudar seu rumo. Um pouco como o Horácio shakespeariano, enxerga as ações, racionaliza por nós, sem se deixar levar pela trama. Pelo que me contam, Fernando também fez um Lucky marcante em “Esperando Godot”, com comentário consciente e preciso da realidade.
Em “A Mulher que Ri”, ele é o filho ou o escritor que reencontra, em algum sonho, seus pais proletários. Quem ri é a mãe, diante da tragédia cotidiana de sua vida miserável.
São personagens com os quais é possível se identificar desde logo, a exemplo dos tacos de madeira que se soltam do cenário _e das nossas casas de antigamente, como escreve a diretora Yara de Novaes no programa, sobre a cena-chave da peça, quando mãe e filho buscam alguma moeda perdida nos vãos do assoalho.
A mãe tudo faz pelo filho, e o pai também tudo faz, mas em luta constante com seu orgulho e com as imposições de sua existência dependente.

Eloisa Elena é uma mãe tocante, por vezes verdadeiramente patética, mas os momentos em que engasguei, durante a apresentação, foram por conta de Plínio Soares, que faz o pai. Ele lembra, em parte, o pai mineiro do jovem Billy Elliot, no filme e depois musical de Stephen Daldry _durante anos meu diretor inglês favorito.
Tem um coração que se derrete pelo filho, a quem ama reservada mas integralmente. Mas o personagem de Alves Pinto, tomado pelo egoísmo natural que exige que deixe aquele lugar, aquela pobreza, que busque sua vida e abandone a família, é quase incompreensível para seu pai.
A peça de Paulo Santoro é inspirada num conto húngaro que desconheço, mas me remeteu seguidas vezes para o “Quase Memória”, que Carlos Heitor Cony escreveu sobre ou para seu pai. O personagem do emocionante Plínio Soares é uma idealização, é evidente, uma “quase memória”, mas pouco importa. É como se aquele pai estivesse vivo, novamente e para sempre.
Se bem me lembro, não gostei tanto de “O Canto de Gregório”, a peça que lançou Santoro, aposta de Antunes Filho em dramaturgia, uns quatro anos atrás. Fiquei incomodado com o que me pareceu um amontoado dialético, quase uma peça de tese reescrita em várias direções. Mas talvez a afetação viesse da encenação, não sei.
Sei que agora o texto de Santoro é de um despojamento que nada quer esconder. É como se a peça tivesse sido dissecada às suas frases mais essenciais, confirmando o talento vislumbrado por Antunes.
(Um registro. Encontrei há pouco num sebo um fascinante programa de “O Diário de Anne Frank”, que o muito jovem Antunes dirigiu há mais de meio século, com o também jovem Raul Cortez e outra aposta que deu certo depois, como sempre com Antunes, Walter Avancini.)
A encenação de Yara de Novaes, como acontecia com Cleyde Yáconis e Lúcia Romano em “O Caminho para Meca”, permite as atuações mais interiorizadas de seus atores, que parecem voltar-se delicadamente para dentro de si mesmos, olhares suspensos no ar.
Mas ela não foge da busca de metáforas cênicas, a mais perfeita delas o cubo que serve de lar para aquela família no limite da fragmentação. É uma casa de brinquedo para o escritor que recorda sua infância e juventude, com paredes que se tornam portas, a remoer e reescrever a memória. Também o fio que corre o palco de lado a lado, detonando um sem fim de imagens.


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12 de março de 2009

Emocionante rito de passagem é poesia cênica


Essa mulher que ri, porque assim escolheu ao invés de chorar, mudou a vida

por Michel Fernandes
Publicado no site Aplauso Brasil em Janeiro de 2009.

Ele agora é um escritor. Ele carrega um boneco nas costas. Ele, o boneco, é o símbolo dos tempos em que era criança e vivia num lar cm fartura de faltas. Ele, tão bem vivido pelo ator Fernando Alves Pinto, é o filho d’ A Mulher Que Ri, emocionante e poético espetáculo que retrata o rito de passagem desse menino que está em cartaz, apena sábados e domingos, no Teatro Coletivo.

O conto do húngaro Moricz Zsigmund serviu de base para que Paulo Santoro (mais conhecido depois de O Canto de Gregório) tecesse um painel bastante poético da vida de um rapaz cuja família passa por uma série de dificuldades financeiras e, depois de muita insistência, o pai acaba concordando por enviá-lo a um internato.

Em linhas gerais, a trama não é tão diferente de tantas outras histórias singelas narradas na literatura e na literatura dramática. O primeiro ponto que chama nossa atenção é o fato da mãe do garoto rir em todas as situações de seu cotidiano, sejam difíceis de enfrentar ou não – e, sobretudo no teatro, as cenas mais conflitantes que são mostradas.

Essa mulher que ri, porque assim escolheu ao invés de chorar, mudou a vida de seu filho – e de todos nós espectadores – porque ela se entrega ao agradecimento e aproveitamento dos mais breves momentos de coisas boas que ela mesmo inventa pra aliviar a realidade. A cena em que ela procura as sete moedas, com seu filho, para comprar pão para tomarem sopa é, ao mesmo tempo, singela e tocante.

Que fique claro que a possibilidade das ações da peça caírem no melodrama repleto de clichês era grande, mas, felizmente, isso é salvo por vários fatores: um deles é a interpretação cheia de verdade que a atriz Eloísa Elena dá a sua personagem, aliada ao essencial como proposta do texto de Paulo Santoro e da direção de Yara de Novaes.

A música de Morris Picciotto – ainda bem! – não é um elemento para criar climas dramáticos – se assim fosse o risco do clichê aumentaria –, mas é parte autônoma que acresce de poesia e beleza a peça.

Fernando Alves Pinto parece ter delicadeza e lirismo natos e sentimos que nenhum outro ator daria a dimensão poética atingida pelo personagem. Na pele do pai, o ator Plínio Soares segue a mesma linha enxuta que dá o toque essencial de emoção.

Vale ressaltar, ainda, o cenário e os figurinos simples e eficientes assinados por André Cortez.


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